quarta-feira, 7 de março de 2012

HOJE É DIA DA MULHER?


HOJE É DIA DA MULHER!


Bem, se hoje é dia da mulher, então é meu dia! Afinal, eu sou mulher, sou mãe, sou amiga, sou dona de casa, sou trabalhadora e batalhadora, mas hoje é meu dia mesmo, porque sou classe média, porque tenho poder aquisitivo, porque tenho acesso aos bens de consumo e a meus direitos.

Dona Almerinda[1] é mulher, mãe, amiga, dona de casa, trabalhadora e batalhadora, mas o dia dela... bem, é um dia sem homenagens, sem presentes, sem ser seu dia... Todo dia é dia de Dona Almerinda matar seu leão, fugir do assédio intelectual, físico, sexual, todos os dias ela pula fogueiras e todo dia comemora sozinha suas vitórias, sozinha com as lembranças de seu dia! A lembrança de ser contratada para serviço de manutenção da limpeza de uma empresa e ter que lavar carros, massagear pés...

Ferrenha defensora de um dia conseguirmos uma sociedade equânime, com educação freireana possível para quem desejar, com saúde humanística, com todas as possibilidades de viver uma vida saudável, tenho cá meus muxoxos para o capitalismo e seu neoliberalismo democrático que privilegia as minorias, a qual assumo que faço parte, e que zomba das maiorias, as quais, acredito, por falta de uma educação libertadora, está sempre nas mãos de quem teve acesso à ela. Um sistema político, social, ideológico, histórico, que diz: Feliz dia da Mulher! Presenteie uma mulher especial!

Quem vai presentear a também especial Dona Almerinda? Vejamos o que nos diz a história.

Mas é um dia para comemorar! Temos uma mulher no mais alto cargo de um governo de maioria masculina - nada contra os homens, coitados, nem têm seu dia! De uma sociedade ainda patriarcalista e masculinista. É uma vitória! Temos mulheres inteligentes e bonitas e talentosas aparecendo na mídia e abrindo caminhos! É uma conquista! No entanto, penso que sair às ruas vizibilizando a condição das Donas Almerindas é ainda mais importante! Isso, sim, seria uma homenagem às mulheres!

Ora, Viva o dia da mulher: de Dona Dilma, de Dona Almerinda! E que um dia, num futuro bem próximo, possamos esquecer que há um dia dedicado a homenagens às mulheres, pois todo dia é dia de comemorar a vida, a alegria de escolher uma profissão por desejo e não contingência do destino e ser respeitada na sua escolha, a alegria de podermos criar nossos filhos e filhas com amor, com apoio (do pai da criança, do governo, das escolas), com leque de escolhas, alegria de ter acesso a serviços de saúde que alie pesquisa, tecnologia e sensibilidade, alegria de saber que homens e mulheres são tão diferentes quanto iguais!

Lançando mão da máquina do tempo que é a escrita, adianto-me em dizer: FELIZ DIA DE COMEMORAÇÃO PELAS NOSSAS MARAVILHOSAS DIFERENÇAS E INCRÍVEIS SEMELHANÇAS!



[1] Nome fictício de uma mulher que foi aviltada em seu trabalho, desconsiderada em sua condição humana e de profissional no comércio de Santo Antônio de Jesus e que nesse dia 08/03/2012, recebe a solidariedade do povo dessa cidade. Uma verdadeira homenagem a todas as mulheres!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

50 MINUTOS


São sete e vinte de uma manhã de sol na capital baiana. Toca o sinal (estridente por sinal!). Vagarosamente estudantes entram na unidade escolar. Não têm pressa. Sabem que as portas das salas de aula estão fechadas, sabem que muitos ainda não chegaram e os que vêm, não apressam o passo. As salas estão fechadas, docentes estão nas salas (dos professores, de suas casas...). A única funcionária responsável por abrir as portas (as portas para o saber trancadas por fora, mas que podem ser abertas por dentro), não tem pressa, tem o seu tempo. Alguns minutos e docentes (os que já chegaram) entram nas salas morosamente.

Dez minutos depois do sinal e estudantes ainda chegam à unidade escolar. Um grupo de resistência reúne-se fora dos muros da escola, entretidos em trocas de saberes, de aprendizagens que não cabem no lado de dentro da instituição (ou cabem? Ou deveriam caber?). Outros entram na escola, mas não nas salas.

Uma estudante chama sua colega: “A professora está na sala.” Ela não se abala. A menina insiste: “Ela vai botar falta!” calmamente e com aparente má vontade, a colega se desloca. Vai para a sala? O mais importante: vai para a aula?

Sete horas e quarenta e cinco minutos, uma professora declara: “A aula já começou”. No melhor estilo da teoria dos atos de fala, ela realiza uma ação em seu dizer, pois, segundo a teoria defendida por Austin, dizer é transmitir informações, mas é também (e sobretudo) uma forma de agir sobre o interlocutor e sobre o mundo circundante. Assim, a aula começa a partir do ato de fala da professora: estudantes sentam-se e copiam algo no quadro em que a professora escreve algo.
O movimento de chegada ainda é grande e lento. Muitos entram na escola, mas não nas salas. Ficam pelos corredores.

O grupo de resistência, ainda na parte de fora da escola, é interpelado por um dos funcionários que sai de seu posto de porteiro. Ele tenta convencê-los a entrar, mas é desconsiderado.

Depois de vinte minutos de uma aula de cinquenta, o grupo de resistência entra na escola, juntamente com outros tantos que chegavam naquele momento. No entanto, o destino desse grupo não é a sala de aula, nem mesmo os corredores. Eles ocupam o lado de fora do prédio. Uma funcionária aproxima-se, conversa. Eles têm argumentos. Parecem desconhecer, desconsiderar autoridade, respeito à pessoa humana, variedade linguística e quando fazer uso dela. Faltaram a essa aula ou a aula foi que faltou?

Mesmo sem ouvir seus argumentos, percebe-se que são convincentes, pois em alguns minutos a funcionária sai. Parece que perdeu a batalha de levá-los para a aula. Estará ela convencida?

O tempo passa, tempo de aula.
Estudantes reúnem-se nos corredores, o grupo de resistência resiste.
Mais estudantes chegam...
Estão atrasados.
Estão atrasados?
A equipe de docente ainda não está toda presente. Uma professora entra numa sala depois de trinta minutos transcorrido de tempo de aula: “Eu não sou aqui?”, “Eu sou onde?”. Seu estudante quem lhe diz: “É na outra turma!”.
Estudantes pelos corredores, professores pelos corredores. E mais estudantes chegam devagar... vagarosamente.
O grupo de resistência vai para dentro do prédio, mas seu destino é o corredor. Corredor é mais interessante que a sala de aula.
Outro grupo de resistência se forma, agora um grupo de meninas. Docentes arrastam chinelos, outros estão nas salas e seus pupilos vão e vêm...
Na matemática da escola, há mais professores/professoras presentes que ausentes; mais estudantes nas salas de aula que fora dela. Mas o resultado dessa matemática não é equilibrado.
Mais um sinal. Burburinho nos corredores.
Mais estudantes chegando à escola e professores que não.
O tempo da escola é einsteniano, parece muito dependente do ponto de vista do observador.


domingo, 1 de novembro de 2009

A PEIA


Um artefato artesanal feito de tiras de sola ou de fibras de carirá que se faz para atar a pata traseira à pata dianteira, ou ainda as patas dianteiras uma a outra de um animal: cavalo, burro, jumento.

A peia impede o animal de se locomover normalmente e esse anda com dificuldade. Serve também para domar os chucros.

O meu avô Dindinho, além de fazendeiro, era também um bom artesão e trabalhava bem esses artefatos.

Além da peia, ele fazia cabresto e cangalha. Vivia na fazenda, lá no interior do sertão, onde o único meio de transporte e carga era feito no lombo das tropas de animais da fazenda para as cidades ou vilas mais distantes. Viagem de um ou dois dias com paradas para descanso e pernoite da tropa. Daí a necessidade da peia, para os animais permanecerem juntos e num raio bem próximo do acampamento.

Eu gostava muito de meus avós Dindinho e Dindinha. Vivi parte da minha infância e adolescência com eles e aprendi a respeitá-los, admirá-los pelos bons exemplos.

Viajava sempre com Dindinho para ajudar na condução da tropa.

Gostava de vovó Dindinha, ela era uma boa costureira. Quando tia Bia casou-se, vovó me fez um bonito terno para eu ir ao casamento.

Tenho muito boas recordações de minha avó. Um dia em que estávamos reunidos na sala, vovô, que não perdia tempo, estava trançando uma peia, vovó bem ao seu lado, costurando, Dindinho concluiu a peia trançada com fibra de carirá e, num gesto impulsivo pegou no braço de vovó, levantou a peia no ar e ameaçou bater nela... uma atitude banal, em tom de brincadeira!

Duas cenas ficaram gravadas na minha memória: uma brincadeira de levantar um instrumento de açoite em direção à vovó – fiquei anestesiado ao ver aquela atitude desrespeitosa e violenta; nem por brincadeira eu imaginaria tal ação! A outra foi a reação instantânea de vovó Dindinha que simplesmente disse: “Pode bater...” numa atitude de total submissão, mas, acima de tudo, numa atitude eletrizante de total confiança no seu esposo e na certeza de que ele jamais praticaria ou levaria a termo tal ameaça. Calma, tranquila, numa postura de submissão, ela olhou fixo nos olhos dele, como se estivesse dizendo: “Eu sou sua. Pode fazer o que quiser, mas faça com cuidado para não machucar a rainha do lar”. Tudo isso vovó transmitiu em pensamento, sem esboçar uma só palavra.

Vovô Dindinho foi abaixando a peia devagar até depositar no colo de vovó e disse:

- Izabel, acabo de ser peado com a peia do seu coração, serei o seu guardião enquanto repousar, estarei sempre perto de ti, onde estiveres, para te proteger, te amparar. Deus, o criador, nos uniu para todo o sempre. Estou peado!

A humildade é a maior virtude do ser humano, transforma o ódio em piedade, a estupidez em mansidão, o orgulho em caridade e harmonia.


João Pereira de Oliveira 1929 + 2006

sexta-feira, 12 de junho de 2009

SALA DE AULA INIBE CRIATIVIDADE

Espaços para questionamentos, intervenções e pensamentos divergentes ainda são muito limitados nas escolas, segundo pesquisa da Universidade de Brasília.
Fonte: www.aprendaki.com.br

As salas de aula estão longe de ser um ambiente propício à criatividade. Espaços para questionamentos, intervenções e pensamentos divergentes ainda são muito limitados nas escolas, segundo pesquisa da Universidade de Brasília realizada com 225 alunos da 5ª série de uma instituição pública do Distrito Federal. Embora fundamental para o estímulo à curiosidade e para a produção de ideias, a interação entre professores e estudantes é defasada, conforme revelou o estudo.

"Ainda falta clareza quanto à necessidade de o aluno perder o medo de errar, ter a ousadia de falar à vontade e pensar diferente. É preciso considerar toda a produção do aluno, gerando um clima de confiança na sala de aula", afirma a psicóloga Ana Clara Libório, autora da pesquisa. Ela avaliou 160 minutos de aula de oito disciplinas da 5ª série, entrevistou professores e aplicou questionários aos estudantes.

De 611 episódios de interação observados nas salas de aula, apenas 91 demonstravam sintonia e cooperação entre os adolescentes e os mestres, o equivalente a 14,8% do total. Outras 143 situações (23,4%) apontavam domínio de um ator sobre o outro e desconsideração de opiniões, seja por parte do professor ou do aluno. Posturas que inibem o interesse e participação nas aulas ou mesmo o ânimo do docente com a turma.

"Nos ambientes mais favoráveis à criatividade, observamos que o professor não só está atento às demandas e ideias apresentadas pelos alunos, como também às intervenções que não se referem ao tema da aula, incentivando a imaginação", avalia Ana Clara. Segundo ela, os adolescentes passam a ter mais interesse pela disciplina quando recebem essa atenção.

MAIS INTERESSE - Os resultados da pesquisa coincidem com os discursos de alunos da rede pública do DF. As estudantes da 5º série do Centro de Ensino Fundamental Nº 2 do Guará, Carla Fragoso, 12 anos, Isabel Medeiros, 11 anos, e Aline Dias, 10 anos, não demoram muito para responder sobre a aula que mais gostam, de História. A simpatia com a disciplina, porém, não está relacionada ao conteúdo, mas à maneira com que ele é transmitido. "O professor brinca e interage com a gente, é divertido", diz Carla, com o consentimento das amigas.

Isabel explica a diferença com as demais matérias: "Quando o professor só escreve no quadro, explica e fica sentado, as aulas são entediantes." O colega das três meninas, Matheus de Sousa, 10 anos, prefere a aula de Português. "Cada dia a gente faz uma atividade diferente, nós mesmos podemos inventar textos e até fazemos poesias", relata.

Feliz com o reconhecimento, a professora de Português da escola, Francisca Barros, conta que há maior interesse da turma quando as atividades em sala de aula são diversificadas. "Procuro entender melhor o perfil do aluno e trazer a aula para o seu cotidiano", explica.

Apesar de as interações entre professores e alunos serem tímidas, a compreensão demonstrada por Francisca estende-se a um número cada vez maior de docentes, de acordo com a pesquisa. O estudo analisou 377 episódios em que os estudantes participam com dúvidas e comentários em relação ao conteúdo da disciplina, esse tipo de interação correspondeu a 61,7% do total observado.

O número, aliado à análise das entrevistas, indica que os professores consideram que aspectos ambientais e individuais dentro da sala de aula favorecem o desenvolvimento da turma. "Eles estão cientes da importância de estabelecerem um clima favorável à criatividade, de estarem mais abertos aos questionamentos dos alunos", afirma a professora do Instituto de Psicologia da UNB e orientadora do estudo, Marisa Brito da Justa Neves.

FALTA AUTONOMIA - Mas nem sempre é fácil mudar a rotina nas escolas. A pesquisa mostrou que os estudantes não são autônomos, ou seja, não conseguem se envolver em atividades com independência. Na análise de cinco fatores do questionário aplicado aos adolescentes, a autonomia obteve os menores resultados. A média das oito turmas foi 2,81 em uma escala de um a cinco. Os quatro outros aspectos analisados mantiveram médias entre três e quatro. "A grande queixa dos professores é em relação ao interesse dos jovens. Eles esperam sempre modelos prontos. Contudo, a independência não é muito estimulada, o silêncio é muito mais valorizado que a curiosidade", analisa Ana Clara Libório.

Matheus Pinheiro, 10 anos, aluno da 5ª série do Centro de Ensino Fundamental Polivalente, confessa que sente vergonha de fazer perguntas na sala de aula. Da Escola Classe 405 Sul, Maria Clara Furtado, 10 anos, não esconde que é dispersa, gosta de conversar e é chamada a atenção por várias vezes.

Lidar com essa disparidade exige muito domínio por parte do professor, afirma Veralúcia Moreira, professora de Matemática da instituição onde estuda Maria Clara. Segundo ela, muitas atividades viram bagunça e não cumprem a finalidade proposta. "A disciplina exige concentração, silêncio, e os alunos não retornam à aula depois de atividades em grupo ou de caráter lúdico. As turmas são cheias, e os professores têm de ter muito domínio", desabafa Veralúcia.

Para a professora de História do Centro de Ensino Fundamental Nº 2 do Guará Glória Amâncio da Silva, os docentes não estão preparados para aulas que instiguem a criatividade dos alunos. "As licenciaturas ensinam apenas conteúdo e esquecem de abordar estratégicas de ensino. O professor se prepara sozinho para encarar a sala de aula", diz.

Mas posturas simples podem fazer diferença no interesse dos alunos pelo conteúdo, ressalta Ana Clara. Entre elas falar pausadamente parar a aula para ouvir perguntas e contribuições dos alunos e procurar incluir toda a turma nas discussões, em vez de voltar-se para um grupo.

O estudo não avaliou diferenças entre as disciplinas, mas nem sempre as mais favoráveis ao desenvolvimento da criatividade, como Artes, são as que apresentam condições para o desenvolvimento da habilidade. "O fundamental é a qualidade da interação entre professores e alunos, independentemente do conteúdo", afirma a pesquisadora.

domingo, 25 de maio de 2008

O uso de multimídia melhora o aprendizado?

Nem vou discutir o que seja multimídia, isso é discussão antiga e já muito batida. A questão das mídias no ambiente escolar também já foi muito discutida. Então o que sobra? Sobra a ação! E sobra mesmo, sempre relegada, sempre preterida, por vários, sinceros e justos motivos: dificuldade de acesso, de manuseio, aparelho defeituoso, tempo de deslocamento da "sala de aula" para a "sala de multimídia", enfim. Mas, como diz o ditado: quem quer faz, quem não quer dá uma disculpa!
O que não podemos é desconsiderar o forte apelo da imagem sobre o aprendizado, afinal, a primeira imagem é a que fica! E, aprender através também da imagem, é, no mínimo, prazeroso!
Acredito na aprendizagem interativa e multimídia (diversificar é a receita do sucesso),em todos os campos de aprendizagem e em todos os níveis.